Era 28 de junho de 1919. Delegados, estadistas e diplomatas das principais potências do mundo reuniram-se no famoso Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes para assinar o tratado que encerraria formalmente a Primeira Guerra Mundial.

Fazia cinco anos que Franz Ferdinand, o arquiduque austro-húngaro fora morto a tiros em Sarajevo, tragédia essa que foi a faísca para desencadear quatro anos de um sangrento conflito global. Desde aquele dia fatídico, a Europa passara por mudanças sísmicas: milhões morreram, antigas dinastias ruíram e a agitação política varria o continente.

O tratado, que foi o resultado de seis meses de conversações de paz em Paris, além de resolver formalmente as hostilidades entre os Aliados e a Alemanha, também pretendia lançar as bases para um mundo mais pacífico e justo. No entanto, tais expectativas seriam frustradas. O acordo acabou por não corresponder às suas ambições mais nobres e ajudou a preparar o terreno para um conflito ainda mais mortal: a Segunda Guerra Mundial.

Para marcar o centésimo aniversário do Tratado de Versalhes, escolhemos 11 fatos importantes sobre o controverso acordo de paz e o seu impacto na história.


1 — Houve outros tratados de paz ao término da Primeira Guerra Mundial

tratado de paz
Os chefes das nações “Big Four ” na Conferência de Paz de Paris, 27 de maio de 1919. Da esquerda para a direita: David Lloyd George, Vittorio Orlando, Georges Clemenceau e Woodrow Wilson

O Tratado de Versalhes só estabeleceu os termos de paz com a Alemanha. Acordos de paz separados foram negociados para cessar as hostilidades com as outras Potências Centrais. Os tratados de Saint-Germain-en-Laye (1919) e Trianon (1920) terminaram a guerra dos Aliados com a Áustria e a Hungria, respectivamente, enquanto que o Tratado de Neuilly-sur-Seine (1919) estabeleceu a paz com a Bulgária. Houve também o Tratado de Sèvres (1920), que tratou da divisão do Império Otomano.



2 — Os vencedores tinham visões bem diferentes para o mundo do pós-guerra

Embora 27 nações tivessem enviado delegações a Paris, ficou bem claro quais países guiariam o processo de paz: a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos. E cada um tinha seus próprios objetivos nas negociações.

A França, que havia sido invadida pela Alemanha em 1914, queria vingar-se, bem como proteger-se contra futuras agressões. O primeiro-ministro francês, Georges Clemenceau, esperava despir o seu antigo inimigo da capacidade de fazer guerra. A recuperação do território perdido para a Prússia na guerra de 1870-71 também estava na agenda dos franceses.

A Grã-Bretanha, muito menos preocupada com a vingança, procurava um equilíbrio de poder na Europa. Na verdade, o primeiro-ministro David Lloyd George imaginava que uma Alemanha reabilitada seria fundamental na geopolítica européia, onde atuaria como controladora tanto para os bolcheviques quanto para os franceses.

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Os EUA entraram nas negociações na esperança de uma nova ordem mundial, conforme articulada pelos famosos 14 Pontos do presidente Woodrow Wilson: paz, estabilidade, livre comércio e autogoverno para as várias etnias da Europa.

Pequenos poderes como o Japão e a Itália procuraram expandir seus respectivos territórios: Os japoneses, ansiosos para ocupar o seu lugar entre as grandes potências do mundo, pressionavam para assumir o controle das antigas colônias alemãs no Extremo Oriente, enquanto que os italianos manobravam para ampliar suas fronteiras dentro da Europa.



3 — O tratado colocava a culpa pela guerra unicamente na Alemanha

A Alemanha, que foi impedida de participar das negociações de paz até 7 de maio, ficou furiosa ao descobrir que só ela seria responsável pela deflagração da guerra em 1914.

O artigo 231 do tratado praticamente ignorou o papel de outros fatores que provocaram a catástrofe, como o confuso sistema de alianças europeias que vigorava antes do conflito.

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A chamada “Cláusula de Culpa de Guerra” chocou os alemães. “Conhecemos todo o peso do ódio que enfrentamos aqui”, disse Ulrich Graf von Brockdorff-Rantzau, ministro das Relações Exteriores de Berlim quando chegou a Paris. “Vocês exigem de nós que confessemos que somos a única parte culpada da guerra; tal confissão da minha boca seria uma mentira.” Os alemães apresentaram um protesto formal e depois se retiraram das negociações. Eles foram ignorados.



4 — A Alemanha teve que pagar pesadas reparações de guerra

Como consequência de assumir a culpa pela guerra, a Alemanha foi obrigada a pagar aos vencedores, nomeadamente a França, uma compensação financeira por danos e prejuízos sofridos no conflito.

Uma comissão de reparações foi estabelecida, o que acabou atrelando a responsabilidade de Berlim a 132 bilhões de marcos de ouro. Esse número depois foi reduzido para 50 bilhões a serem pagos em 10 anos, a partir de 1921. Mesmo assim, a Alemanha só pagou o equivalente a cerca de 20 bilhões de marcos de ouro. Apesar disso, a indignação na Alemanha pela questão das reparações foi generalizada, porque os alemães consideravam que os pagamentos arruinariam a economia nacional.



5 — O exército alemão foi drasticamente reduzido

O tratado também tirou da Alemanha sua outrora poderosa máquina de guerra. Nos termos dos artigos 160 a 163, seria permitido à República de Weimar um exército de não mais do que sete divisões de infantaria e três de cavalaria, totalizando não mais do que 100.000 homens.

Nenhuma artilharia mais pesada que 105 mm seria permitida. O Estado-Maior General da Alemanha deveria ser abolido e restrições seriam impostas ao número de academias militares permitidas. Houve também a proibição total de recrutamento.

Berlim foi obrigada a abandonar muitas das suas fortificações fronteiriças, particularmente aquelas na fronteira com a França.

A marinha alemã seria reduzida a apenas 15.000 marinheiros, seis navios couraçados, um número igual de cruzadores ligeiros, uma dúzia de destróieres e absolutamente nenhum submarino. A força aérea seria desmantelada por completo. A indústria nacional de armamentos também foi destruída. As fábricas alemãs foram proibidas de produzir armas químicas, veículos blindados e aeronaves militares.



6 — A Alemanha foi forçada a fazer enormes concessões territoriais

Tropas francesas na Renânia

Muitos consideraram as reduções territoriais impostas à Alemanha como uma das disposições mais severas do Tratado de Versalhes. O país teve que entregar 25.000 milhas quadradas de terra, onde viviam sete milhões de cidadãos alemães.

Todas as novas regiões adquiridas no Oriente desde o acordo de paz de 1918 com a Rússia (o Tratado de Brest-Litovsk ) seriam tomadas.

Berlim também teria que ceder territórios na Alta Silésia para o novo estado independente da Polônia. Tal seria o caso da região de Posen. A Prússia Oriental seria reduzida em tamanho e fisicamente separada da grande Alemanha por um Corredor Polonês que atravessaria o território da Pomerânia até o mar Báltico.

Além disso, o porto de Danzig se tornaria uma cidade-estado semi-autônoma. No oeste, Eupen-Malmedy, anexada à Alemanha em 1914, seria devolvida à Bélgica. A Alemanha também teria que devolver a Alsácia-Lorena à França, que foi anexada durante a Guerra Franco-Prussiana de 1870. O Sarre, estado alemão rico em carvão, seria administrado pelos Aliados por 15 anos.



7 — O Tratado de Versalhes liquidou o Império Alemão

Berlim também seria forçada a entregar as suas colônias na África e no Extremo Oriente.

A França reivindicou a Togolândia e os Camarões. A Bélgica assumiria Ruanda-Burundi. A África do Sul recebeu o controle do sudoeste da África, e os britânicos passaram a administrar a África Oriental Alemã, embora uma pequena porção daquela colônia, que viria a se tornar Moçambique, tenha sido concedida a Portugal.

No Pacífico, o Japão tomaria posse das colônias alemãs na China e todos os territórios insulares do Kaiser situados acima do equador: as Ilhas Marshall, as Carolinas, as Marianas e as Ilhas Palau. Abaixo do equador, a Nova Zelândia recebeu a Samoa Alemã, enquanto que a Nova Guiné Alemã, o Arquipélago de Bismarck e Nauru foram para a Austrália.



8 — A guerra recomeçaria se a Alemanha não concordasse com todos os termos 

Os Aliados deram a Alemanha até 23 de junho para concordar com o tratado. Se Berlim recusasse, as hostilidades seriam retomadas dentro de 24 horas. A Grã-Bretanha, a França, a Bélgica e os Estados Unidos combinados tinham centenas de milhares de tropas estacionadas na Renânia sob os termos do Armistício de 1918.

A França estava pronta para movimentar os seus oitavo e décimo exércitos, as forças de ocupação britânicas tinham 11 divisões à sua disposição. Os Estados Unidos também posicionaram um quarto de milhão de soldados na Renânia.

O primeiro-ministro alemão, Philipp Scheidemann, deixou o cargo em vez de assinar o Tratado. O seu sucessor, Gustav Bauer, fez uma última tentativa para negociar alguns dos artigos propostos pelo acordo, mas seus apelos não foram ouvidos. Berlim não teve escolha senão aceitar o que muitos cidadãos da nova República de Weimar consideravam ser não um acordo de paz, mas uma severa vingança dos Aliados.



9 — O Tratado de Versalhes estabeleceu a Liga das Nações

Um dos resultados mais benignos do Tratado de Versalhes foi o estabelecimento da Liga das Nações, a primeira organização global comprometida com o objetivo de manter a paz mundial. Convocada em 10 de janeiro de 1920, a Liga foi fundada sobre os princípios de segurança coletiva, desarmamento e resolução de conflitos por meio de negociação e arbitragem internacional.

Em seu auge, em 1935, 58 países eram membros, mas, infelizmente, a Liga das Nações seria lembrada mais por seus fracassos do que por seus sucessos. Considere o fato de que os Estados Unidos, cujo próprio presidente Wilson propôs a formação da Liga, se recusaram a participar dela.

Mais tarde, outros membros abandonaram a Liga para perseguir suas próprias políticas militaristas e expansionistas. O Japão retirou-se depois de ser condenado por invadir a Manchúria em 1931. A Alemanha, admitida em 1926, retirou-se apenas nove meses depois de Hitler assumir o poder em 1933. E a Itália entrou em conflito com a Liga quando invadiu a Abissínia em 1935.

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Sem exército próprio, a Liga das Nações dependia dos Estados membros para impor suas resoluções. Mas o interesse nacional das potências aliadas prevalecia, e os estados beligerantes não sofriam consequências mais sérias. O mais condenável de tudo, a Liga das Nações acabou por falhar em impedir a Segunda Guerra Mundial. De fato, a ineficácia dela colaborou diretamente para a eclosão das hostilidades em 1939.



10 - Houve reações diversas ao Tratado de Versalhes

Comício em Berlim contra o Tratado de Versalhes — 1932

Embora o tratado fosse amplamente bem aceito entre as pessoas comuns nos países aliados, especialmente os aspectos punitivos em relação à Alemanha; um número de indivíduos proeminentes ficou menos entusiasmado com o que estava acontecendo.

Um dos delegados britânicos, o futuro economista John Maynard Keynes, temia que o acordo fosse muito draconiano. Ele o comparou aos termos incapacitantes que Roma impôs a Cartago depois da Segunda Guerra Púnica.

Um dos principais enviados sul-africanos, o general Jan Smuts, perguntou ao primeiro ministro britânico: “O que aconteceu com os Quatorze Pontos de Wilson?”, referindo-se ao plano do presidente americano para um mundo pós-guerra mais justo.

Surpreendentemente, poucos dos compatriotas de Wilson compartilhavam tal visão. O tratado, assim como a Liga das Nações, enfrentou fortes ventos contrários no Congresso dos EUA, onde uma coalizão de senadores apelidados de “irreconciliáveis” votou contra a ratificação. Essa aliança era uma mistura de nacionalistas, isolacionistas e opositores partidários da Casa Branca Democrata. Os Estados Unidos acabariam por fazer seu próprio tratado de paz com as Potências Centrais em 1921.

Também houve entre os vencedores os que acharam que o Tratado de Versalhes não era duro o suficiente para com a Alemanha. O marechal Ferdinand Foch, ex-comandante supremo dos Aliados, advertiu que, apesar das medidas tomadas para privar a República de Weimar de seu território e dos poderes de guerra, o inimigo histórico da França certamente ressurgiria dos escombros. “É um armistício de 20 anos”, profetizou ele.



11 — Versalhes preparou o palco para a Segunda Guerra Mundial

O tratado foi recebido com insultos em toda a Alemanha. O almirante alemão Ludwig von Reuter mandou afundar a Frota do Alto Mar estacionada em Scapa Flow dias antes da assinatura do tratado, para impedir que os navios de guerra de seu país fossem entregues aos britânicos.

O desafio alemão não terminou aí. O governo de Berlim começou a contornar as cláusulas do desarmamento do acordo já em 1920. Quase imediatamente, o exército reconstituiu secretamente o estado-maior geral sob o disfarce de algo chamado Truppenamt ou ‘Escritório de Tropas’.

Da mesma forma, a manufatura de armas alemã foi retomada depois de ser transferida para estados estrangeiros como a Suécia, a Suíça, a Holanda e até a União Soviética.

O tratado tornou-se um poderoso símbolo de ressentimento na Alemanha do pós-guerra, que proporcionou a abertura para agitadores e revolucionários. Adolf Hitler subiu ao poder na Alemanha com uma plataforma política que reservava ao Tratado de Versalhes um desprezo violento. “[Foi] a maior injustiça e o mais infame maltrato à uma grande nação na história registrada”, Hitler diria sobre o acordo. “Porque era impossível para a nossa nação continuar a existir no futuro, a menos que ela se livrasse desse estrangulamento.”

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