O triunfo do cristianismo sobre as religiões pagãs da Roma antiga levou à maior transformação histórica do Ocidente até hoje: uma transformação que não foi apenas religiosa, mas também social, política e cultural.

A música, as belas-artes, a literatura e a filosofia ocidentais teriam sido incalculavelmente diferentes se as massas continuassem a adorar os deuses do panteão romano em vez do único Deus de Jesus — se o paganismo, em vez do cristianismo, tivesse inspirado suas imaginações e guiado os seus pensamentos.

Mas como um minúsculo e obscuro movimento messiânico da periferia do Império Romano desalojou o paganismo clássico e se tornou a fé dominante da civilização ocidental?

De acordo com os nossos registros mais antigos, os primeiros “cristãos” a acreditar na morte e ressurreição de Jesus foram 11 discípulos do sexo masculino e um punhado de mulheres — digamos que umas 20 pessoas ao todo.

Estes eram trabalhadores da classe baixa e sem educação de um canto remoto do Império Romano. E ainda assim, dentro de três séculos, a igreja cristã contava com cerca de 3 milhões de adeptos.

No final do século IV, o cristianismo era a religião oficial de Roma, com aproximadamente 35 milhões de seguidores — ou seja: metade do Império adorava o Deus dos cristãos.

Um século depois disso, restavam poucos pagãos.

2000 anos de expansão do cristianismo em apenas 90 segundos

Os cristãos de hoje podem alegar que sua fé triunfou sobre as outras religiões romanas porque era (e é) verdadeira, correta e boa.

Concordo com essa alegação, mas ainda assim, é preciso considerar as contingências históricas que levaram à conquista cristã e, em particular, a estratégia brilhante que a campanha evangelística cristã usou para converter os pagãos.

Nesse artigo, vamos analisar tanto os fatores históricos bem como os métodos cristãos, responsáveis por disseminar os ensinamentos de um humilde carpinteiro da Galileia por todo o mundo pagão.



1 — A igreja cristã criou uma necessidade

Por incrível que pareça, o cristianismo primitivo não conseguiu dominar o mundo antigo simplesmente atendendo às necessidades mais profundas do seu público-alvo, os adeptos pagãos das religiões politeístas tradicionais.

Pelo contrário, a fé cristã criou uma necessidade que a maioria das pessoas não tinha.

Todos no mundo antigo, exceto os judeus, eram “pagãos” — isto é, acreditavam em muitos deuses.

Esses deuses — sejam eles os deuses do Estado de Roma, os deuses municipais locais, os deuses da família, os deuses das florestas, montanhas, riachos e prados — eram ativos no mundo, envolvidos profundamente com os assuntos humanos.

Eles asseguravam que as plantações crescessem e que o gado se reproduzisse; traziam chuvas e protegiam contra tempestades; eles afastavam doenças e restauravam a saúde aos doentes; eles mantinham a estabilidade social e conduziam os exércitos à vitória nos campos de batalha.

Os deuses faziam tais coisas em troca da devida adoração, que em todos os momentos e em todos os lugares envolvia proferir orações distintas e realizar os sacrifícios apropriados.

Se os deuses não fossem adorados dessa maneira - se fossem ignorados - eles poderiam trazer calamidades sobre a humanidade: secas, epidemias, colapso econômico, derrotas militares e assim por diante.

O ponto-chave é que os deuses agiam — para o bem ou para o mal — na vida presente, no aqui e no agora.

O Juízo Final, mostrando o céu à esquerda e o inferno à direita, ilustra a promessa única de salvação eterna do cristianismo, algo que nenhuma religião pagã oferecia. Pintura de Fra Angelico.

Quase ninguém no mundo romano praticava a religião a fim de escapar do castigo eterno ou receber uma recompensa celestial; mas tudo mudou quando apareceram os primeiros cristãos.


Ao contrário dos pagãos, os cristãos alegavam que havia apenas um Deus e que ele deveria ser adorado não pelo sacrifício, mas pela crença correta. Qualquer um que não acreditasse nas doutrinas certas, seria considerado um transgressor diante de Deus.

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E, o mais significativo de tudo, recompensas e punições seriam dadas não apenas nesta vida, mas na vida por vir: seja a felicidade eterna no céu ou o tormento eterno no fogo do inferno.

As religiões nunca haviam promovido ideia parecida antes do cristianismo. Os cristãos criaram uma necessidade de salvação que ninguém tinha. Então, eles argumentaram que somente as suas crenças poderiam atender à tal necessidade.

E como sabemos, eles tiveram um sucesso estrondoso com essa estratégia.



2 — Os primeiros cristãos deram provas da superioridade do seu Deus

Todos no mundo antigo sabiam que divindade era uma questão de poder.

Os seres humanos não tinham como controlar as chuvas, ou evitar que uma epidemia se alastrasse pela comunidade, tampouco impedir que um desastre natural os atingisse; mas os deuses sim.

Os deuses supriam as soluções que os meros mortais eram incapazes de conquistar por si mesmos.

Isto estava na raiz de toda a religião antiga. E tornou-se o principal ponto de promoção da mensagem cristã.

Os cristãos declararam que seu Deus era mais poderoso do que qualquer outro deus — de fato, mais poderoso do que todos os outros supostos deuses combinados. Só o Deus de Jesus Cristo era verdadeiramente Deus e só ele poderia prover todas as necessidades da humanidade.

A batalha entre o Deus cristão e os deuses pagãos está bem relatada em uma ampla gama de textos antigos.

Considere o livro apócrifo chamado Atos de João, um relato das proezas missionárias do discípulo de Jesus, João, o filho de Zebedeu.

Em um ponto da narrativa, João visita a cidade de Éfeso e o seu renomado templo dedicado à deusa Ártemis. Ao entrar no local sagrado, João sobe numa plataforma e lança um desafio a uma grande multidão de pagãos: eles deviam orar pedindo que Ártemis o mate.

Se ela não responder, João, por sua vez, pediria ao seu Deus que matasse todos eles.

A multidão ficou apavorada — todos já tinham ouvido falar que João levantara pessoas da morte e sabiam que a seu pedido, o Deus cristão operava milagres.

Quando eles se recusaram a aceitar o desafio, João amaldiçoou a divindade do lugar e, de repente, o altar de Ártemis se dividiu em pedaços, os ídolos se romperam e o teto cedeu, matando o sumo sacerdote da deusa no local.

A multidão deu a resposta esperada: “Há apenas um Deus, o de João… agora nos converteremos, visto que vimos seus atos milagrosos”.

O conto é uma lenda, mas transmite uma verdade importante. Poderes miraculosos eram o cartão de visita dos cristãos primitivos, sua prova convincente de que falavam a verdade.

Jesus transforma água em vinho nas Bodas de Caná

O próprio Jesus, o filho de Deus, realizou um milagre após o outro. Ele nasceu de uma virgem; ele cumpriu profecias faladas séculos antes pelos antigos profetas; ele curou os doentes; ele expulsou demônios; ele ressuscitou os mortos.

E se tudo isso não bastasse, depois de crucificado, ele foi levantado da sepultura e subiu ao céu para habitar com Deus para sempre.

Seus discípulos também fizeram milagres — milagres surpreendentes — todos registrados para a posteridade em escritos amplamente disponíveis. E os milagres chegaram até os dias atuais. As pessoas se convenceram dessas histórias, não em massa, mas uma de cada vez.



3 — O cristianismo começou na base da sociedade

No seu inicio, o cristianismo não conseguiu levar sua mensagem aos grandes e poderosos líderes do judaísmo, nem à poderosa elite romana. A nova religião nasceu como um movimento de base.

Os seguidores originais de Jesus espalhavam suas crenças para aqueles que estavam perto deles: que Jesus havia sido ressuscitado dentre os mortos, e que suas maravilhas continuavam sendo realizadas entre os que nele acreditavam.

Eles não conseguiram convencer a maioria daqueles com quem conversaram, mas apenas alguns. E, como sabemos, um crescimento pequeno, mas constante a partir do zero foi o suficiente para estabelecer a hegemonia da nova religião.

Pode-se pensar que, se o cristianismo passou de cerca de 20 pessoas no ano da morte de Jesus, para cerca de 3 milhões de pessoas, 300 anos depois, deve ter havido grandes comícios evangelísticos, onde milhares foram convertidos num único dia.

Não foi esse o caso.

Se traçarmos a taxa de crescimento necessária ao longo de uma curva exponencial, o movimento cristão precisaria crescer a uma taxa de cerca de 3% ao ano.

Ou seja, se houver 100 cristãos neste momento, é necessário que haja apenas três conversões até o final de 1 ano. Se isso acontecer ano após ano, os números acabam por se acumular.

Mais tarde na história do movimento, quando existir 100.000 cristãos, a mesma taxa de crescimento anual renderá 3.000 convertidos; quando o movimento chegar a 1 milhão de adeptos, serão 30.000 convertidos em um ano.

A chave foi alcançar uma pessoa de cada vez. O movimento cresceu de baixo para cima, não de cima para baixo. O topo acabará por se converter, mas é preciso começar abaixo, na base, onde a maioria das pessoas realmente vive.

 Afresco do século XIII retratando a doação de Constantino ao Papa Silvestre I



4 — O cristianismo primitivo “devorou” a competição

Em grande medida, o cristianismo teve sucesso porque exigia que os convertidos tomassem uma decisão exclusiva e definitiva. Se eles escolhessem se unir à igreja de Cristo, teriam que abandonar todos os compromissos e associações religiosas anteriores.

Para a fé cristã, era tudo ou nada, assim, enquanto fomentava o seu próprio crescimento, ela “devorava” a competição.

Isso pode parecer incomum para os padrões contemporâneos, já que no mundo de hoje, normalmente entendemos que alguém que se torne batista não pode permanecer budista; um muçulmano não poder ser um mórmon ao mesmo tempo.

Mas nós mesmos só aceitamos religiões exclusivas, precisamente porque os primeiros cristãos convenceram o mundo de que o correto é assim. A religião pessoal ou é uma coisa ou outra, não ambas — ou várias — de uma só vez.

As religiões pagãs não funcionavam assim. Como todos os pagãos adoravam muitos deuses, não havia sentido que qualquer divindade pagã exigisse devoção exclusiva.

Muito pelo contrário.

Dentro dos círculos pagãos, se você escolhesse adorar um novo deus — digamos, Apolo — isso não significava que você era obrigado a desistir da adoração de outro, como Zeus. Não, você adoraria os dois deuses — junto com Hermes, Atena, Ares, seus deuses da cidade, seus deuses da família e todos os outros que você escolhesse. Não havia limites.

Os cristãos, no entanto, afirmavam que havia apenas um Deus, e se você o seguisse, teria que abandonar todos os outros.

Isso significava que todo novo adepto que o cristianismo ganhava, estava completamente perdido para o paganismo. Nenhuma outra religião exigia tal exclusividade. Por essa razão, à medida que o cristianismo crescia, destruía toda a concorrência em seu caminho.

E assim continuou por milênios. Quando os cristãos conquistaram novos territórios, derrubaram deuses celtas, deuses nórdicos, deuses andinos e muitos outros.



5 — Pater familias — um novo aliado do cristianismo

Embora tivesse começado com um movimento de base, o cristianismo primitivo também soube reconhecer a importância de converter apoiadores influentes.

No início, isso implicava simplesmente em converter um homem adulto que era chefe de sua família — um pater familias.

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No mundo romano, o pater familias escolhia a religião da família. Se você o convertesse, teria a esposa, filhos e o escravos dele incluídos no pacote. Mesmo se fosse uma família pequena - marido, esposa e dois filhos - a conversão de uma pessoa significaria a conversão de quatro novos crentes.

Esse efeito multiplicador, ajudou o cristianismo a atingir a supremacia religiosa do mundo.



6 — Os primitivos cristãos cuidavam dos doentes, viúvas e órfãos

Pragas, incêndios, desastres naturais e devastação causada por tumultos ou guerras eram ocorrências regulares nas cidades que os primeiros cristãos chamavam de lar. O que diferenciava cristãos e pagãos era o modo como as duas religiões lidavam com essas calamidades.

Em vez de fugir da praga mais recente, os cristãos permaneciam nas cidades para cuidar dos seus — e dos outros.

Mesmo sem qualquer conhecimento da ciência médica, o simples ato de fornecer comida, água e abrigo às pessoas doentes, aumentava em muito as taxas de sobrevivência em tempos de calamidade generalizada.

O ato de bondade também enviava uma poderosa mensagem de solidariedade aos pagãos que por acaso recebessem ajuda. Ao longo do tempo, essa atitude dos cristãos angariou conversões regulares para o seu culto, tão dedicado ao serviço humanitário.



7 — Os cristãos eram contra o adultério, o aborto e o infanticídio

Pedro e Paulo confrontam Simão Mago diante de Nero em afresco florentino


O antigo mundo romano não era gentil com mulheres e crianças.

Homens casados ​​podiam dormir com outras mulheres (especialmente escravas e prostitutas), e os descendentes indesejados dessas uniões eram geralmente abortados ou simplesmente largados para morrer após o nascimento.

Os cristãos se pronunciaram contra todas essas práticas, exortando os seguidores de Jesus a permanecerem fiéis no matrimônio (até mesmo os homens!) e a cuidarem dos membros mais vulneráveis ​​da sociedade.

Alguns cristãos até resgatavam bebês abandonados, criando-os como seus próprios filhos. Todas essas crenças e ações levaram a taxas mais altas de nascimentos e adoções, que por sua vez, elevaram a taxa demográfica dos cristãos.


8 — Os cristãos criaram a teologia do amor

As ações descritas acima - interessar-se pelo próximo, cuidar dos doentes, resgatar bebês — refletem certos princípios teológicos cristãos.

O mais importante deles é a certeza de que Deus ama o mundo que Ele criou, e que Ele deseja que aqueles que o amam também amem seu próximo.

Em nosso contexto moderno, tal doutrina parece evidente. É quase um clichê.

No entanto, uma ética abrangente baseada no amor foi uma ideia radical.

Acreditamos nisso tão amplamente hoje em dia, pelo menos em um campo teórico, somente porque o cristianismo incorporou esse conceito com absoluto sucesso ao espírito da civilização ocidental ao longo dos séculos.



9 - Fatores históricos que ajudaram no crescimento do cristianismo

Também é preciso apontar alguns fatores históricos que ajudaram o cristianismo a ser tão bem sucedido. Eis o 5 principais:

► Diáspora judaica — Durante o período do Segundo Templo, os judeus foram dispersos por todo o mundo mediterrâneo. Isso significava que havia sinagogas judaicas nas principais cidades, bem como gentios que estavam cientes da existência do Deus judaico e das Escrituras Hebraicas.

► Língua grega — Alexandre, o Grande, espalhou o helenismo (cultura grega) através de seu império, implantando o uso generalizado da língua grega. Isso permitiu que tanto o Antigo Testamento (Septuaginta) quanto o Novo Testamento fossem lidos pelo maior número de pessoas possível.

► Filosofia grega — A religião grega era muito antropomórfica, não apenas em como os deuses pareciam, mas em como eles agiam. Filósofos, como Platão e Aristóteles, ajudaram a desenvolver o conceito dos deuses em algo mais sublime. Isso não significa que o deus dos filósofos era como o Deus da Bíblia, mas a filosofia grega, ajudou os escritores cristãos a desenvolverem seus argumentos de um modo que fossem aceitos no mundo helenístico.

► Estradas romanas — Hoje é fácil viajar de um lugar para outro. Não foi sempre assim no mundo antigo. As excelentes estradas romanas facilitaram em muito as viagens dos missionários cristãos.

► Pax Romana — A paz romana era uma paz severa. Os povos que gostavam de gladiar-se entre si eram obrigados a largar as armas ou enfrentariam o castigo dos romanos. Isso, junto com as estradas, ajudou na disseminação do cristianismo, porque viajar se tornou mais seguro do que em qualquer época anterior à dominação romana.



10 — Os primeiros cristãos contavam com uma força superior

Naturalmente, a resposta simples à pergunta sobre a ascensão do cristianismo, é aquela sobre a qual historiadores e sociólogos dificilmente falarão. É simplesmente esta: Deus fez a igreja crescer. Ele salvou almas. Ele converteu corações. Foi a vontade de Deus fazer a igreja prosperar.

Desde que o nosso fundamento teológico esteja bem estabelecido, uma cuidadosa investigação histórica e sociológica terá seu lugar, pois há uma série de fatores sociais que Deus usa, juntamente com sua palavra, para realizar seus propósitos.

Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. 1 Coríntios 3:6

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