Faz semanas que o Boca no Trombone lucra com as três mortes. Dia após dia, esse tabloide publica algo novo sobre a tragédia que abalou Nova Esparta, ainda assim, os peculiares pormenores que permeiam o caso continuam desconhecidos, como um romance policial cujas páginas iniciais estejam em branco.

Depois de muito hesitar, pois sou avesso aos holofotes, resolvi contar a história tal como ela aconteceu. Alguns detalhes parecerão estranhos, teria sido fácil expurgá-los, entretanto, eu não quis aleijar a verdade apenas para dar mais verossimilhança à narrativa. O que vi, sonhei e ouvi, assim contarei.


Como todos sabem, era domingo e fazia muito calor. Na praça em frente ao farol, centenas de almas, vindas de todos os cantos da cidade, aproveitavam a tarde ensolarada, e no encalço delas, havia um enxame de ambulantes, oferecendo comidas de rua, bebidas, mil e um artigos de verão. Sempre aos berros e com o fervor de quem vende um lugar no céu.

O mormaço e toda aquela algazarra embaralharam os meus sentidos; então, desci alguns degraus da arquibancada que costeia o rio e sentei-me perto do pregador e da beata, onde a balbúrdia era menos perturbadora.

O pregador lia salmos com voz de apocalipse. A mulher, sentada aos pés dele, acompanhava a leitura dos cânticos na Bíblia, intercalando os versículos com um Amém, um Aleluia, um Glória a Deus nas Alturas:

— Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores — bradava o pregador — cuja pronúncia rebuscada denunciava um leve acento castelhano.

— Amém — respondia a beata.

— Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.

— Aleluia.

— Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará.

— Glória a Deus nas alturas — finalizava a puritana — que de vez em quando conferia os arredores, feito criança arteira temendo ser apanhada com a mão na massa.

Que bela a beata… Em vão tentava fazer-se desinteressante. Uma florzinha lilás, presa pouco acima da orelha, era nela o único indício de vaidade. Estava sempre atenta às falas do pregador, mas entre um Amém e um Aleluia, olhava-me de soslaio e percebendo que tinha-me por cativo, esboçava um risinho de satisfação antes de voltar à seriedade das Escrituras.

Sem nenhum escrúpulo, continuei a trocar olhares velados com ela. Passaram-se minutos. Enamorei-me. Por que hei de negar? Então, o pregador, com uma rispidez na voz que julguei ser endereçada a mim, arrancou-me do transe:

— Um clamor de Davi, de quando ele encontrava-se escondido na caverna de Adulão.

Quantas reportagens de primeira página daria a vida do rei Davi - pensei - e não sei por que cargas d’água, ocorreu-me fantasiar como seriam as reportagens do Boca no Trombone, caso as peripécias do pastor que virou rei fossem publicadas nesse jornaleco viciado em sangue e sexo, e mentalmente, comecei a narrar a saga do rebento de Jessé para o dito periódico.

Escolhi os episódios que mais agradariam os seus leitores, acostumados com violência e escândalos. Imaginei os cenários, descrevi em detalhes as personagens, caprichei no enredo, e por fim, cunhei as manchetes na tradição do Boca no Trombone: cheias de cacófatos e trocadilhos de mau gosto.

Thanks and praise to the Lord and I will feel all right...

Enquanto eu divagava em reportagens fictícias e o pregador recitava salmos sem nenhum critério aparente, cinco rapazes e duas moças reuniram-se no final da arquibancada, onde a margem do rio é crivada de blocos de concreto. Um deles tinha um violão e acredito que todos tinham maconha. Quando a maresia da fumaça sobrepujou a maresia do mar, o rapaz do violão, de pele bronzeada e tranças ruivas, começou a dedilhar alguns acordes.

Outro deles, um com barba de asceta hindu, levantou-se e apresentou o grupo:

— Somos os Sons of Sheba — e vamos tocar reggae pra vocês.

Depois, ele cantarolou os primeiros versos de uma canção, no que foi acompanhado pelo restante do grupo, que fazia o vocal de fundo:

Hear the children crying — exortava o vocalista.

One love — respondia o coro.

Hear the children crying — reafirmava o cantor.

— One life — replicava o grupo.

Daí, as vozes se juntavam:

Sayin: give thanks and praise to the Lord and I will feel all right.

Sayin: let's get together and feel all right.

A melodia ganhou força e sendo eles bem afinados, boa parte da plateia do pregador bandeou-se para ouvi-los. Eu permaneci no meu lugar, em terra de ninguém, de onde observava o desenrolar da batalha.

Os anjos e os demônios falam a mesma língua

Aturdido pela inesperada concorrência, o casal redobrou os esforços a fim de recuperar o público. Ele caprichava ainda mais nas ênfases, modulando a voz para refletir com precisão o espírito dos cânticos, ela, em vez de uma, agora entoava duas expressões hebraicas a cada intervalo de versículos:

— O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz em pastos verdejantes; guia-me mansamente a águas tranquilas.

— Amém, Aleluia.

— Refrigera a minha alma; guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome.

— Aleluia, Glória a Deus nas Alturas.

— Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.

— Amém, Adonai Echad.

Não reconheci o último termo e encarei abruptamente a mulher, que aproveitou a oportunidade para me alertar:

— A música deles é do diabo.

Desejei defender os jovens, todavia, foi um desejo pálido, como quase sempre são os desejos de um velho. Ademais, o ânimo dos músicos logo esmoreceu, e o pregador, aproveitando-se do ensejo, lançara mão de uma nova estratégia para reconquistar o monopólio das atenções. Segurando a Bíblia com a mão esquerda, ele ergueu os braços, fechou os olhos e pôs-se a orar com voz tonitruante.

Iniciou com frases feitas, depois vieram palavras mais espontâneas, enrolou-se novamente em clichês e, de repente, começou a falar numa língua incompreensível, num idioma tão indecifrável que nada fixou-me na memória. Eram apenas sílabas atiradas no ar num ritmo de metralhadora.

Com cara de interrogação, olhei para a beata. Ela esclareceu-me, cheia de orgulho:

— É a língua dos anjos.

— Os anjos e os demônios falam a mesma língua — retruquei.

O raciocínio deveria permanecer trancafiado no meu pensamento, mas escapou-me num tom de confrontação e ela, sem pestanejar, condenou-me:

— O senhor queimará com o diabo no lago de fogo e enxofre.

Quengas dos infernos — berrou uma baixinha com sotaque cearense

Sentença tão severa, vinda de alguém que nas entrelinhas demonstrara certa simpatia por mim, deixou-me amuado. Parei de prestar atenção no casal e passei a procurar alguma outra situação que me rendesse uma crônica, ou quem sabe um conto, pois agora que estou aposentado, escrever tornou-se o antídoto para o veneno das intermináveis horas de folga.

Na arquibancada, João Ligeiro vendia maconha à sua numerosa clientela sem que nada o incomodasse; Chico Vascaíno, o padre que largou a batina para viver nas ruas, mendigava; e dois filipinos trocaram socos, depois de discutirem num idioma tão estranho quanto a suposta língua angélica do pregador.

Lá no rio, uma traineira lutava contra a correnteza; rebocadores conduziam um cargueiro holandês ao porto e pescadores partiam para o mar aberto. Nada de novo debaixo do sol.

Entretanto, o cenário se tornaria mais interessante. Um pequeno iate descia o rio, navegando tão próximo à margem e tão devagar, que era possível distinguir quem bebia uísque de quem preferia vodca. Quando a embarcação passou bem na nossa frente, duas das moças de biquíni beijaram-se. Um demorado beijo pornográfico; beijo exagerado, sem paixão, cujo propósito era escandalizar a plateia da arquibancada, creio eu.

As reações dos espectadores variaram. Dos descompromissados o beijo recebeu uma saraivada de elogios chulos e assobios, os maridos e namorados calaram-se, porque assim manda o bom senso, e de algumas mulheres, as duas ouviram todos os plebeísmos listados no dicionário para designar a profissão mais antiga do mundo:

— Vagabundas — gritou uma senhora enquanto cobria os olhos dos dois filhos.

— Piranhas — disse uma loira que usava óculos.

— Quengas dos infernos — berrou uma baixinha com sotaque cearense.

Fiquei curioso para ver qual seria a atitude da beata perante a performance das beldades, convicto de que elas me fariam companhia no lago de fogo e enxofre; porém, nem o beijo, nem os assobios, tampouco os palavrões do mulherio, prenderam a atenção dela, pois naquele momento, o pregador era todo o seu universo.

Não ouvi o que os dois conversavam, mas percebi malícias na sutileza dos gestos, na prudência dos pequenos afagos e nos sorrisos dela, que embora fossem tímidos, eram sorrisos que prometiam recompensas.

Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris

Depois do alvoroço causado pelo beijo lésbico, a arquibancada aquietou-se. O marulho, a maresia e o silêncio do pregador me levaram a cochilar sentado. Não sei dizer se dormi por muito tempo, sei que foi o suficiente para que eu sonhasse.

No meu sonho eu era o rei Davi a contemplar estrelas na noite de Jerusalém, e lá embaixo, num dos terraços da cidade, estava Betsabá, banhando-se ao luar. Minha Betsabá, porém, não era a esposa de Urias, era ela… a beata do pregador. Liberta dos trajes puritanos que ocultavam as suas curvas, com os seus longos cabelos negros contrastando com a pele alvíssima, era ela, prometendo-me recompensas com o seu sorriso.

Entretanto, antes que o meu devaneio me conduzisse a um adultério onírico, o estampido de um tiro devolveu-me à realidade. Levantei-me de supetão e vi o pregador estirado de bruços, com um buraco no crânio de onde saía sangue e miolos.

Tentei correr como fizera a multidão, mas estava petrificado.

A beata, com os braços voltados para a frente, como se tentasse segurar algo vindo na sua direção, balbuciava com a perplexidade dos inocentes:

— Por favor… Que mal lhe fizemos?

Não houve resposta, houve um segundo tiro e ela foi arremessada para trás, caindo quase dentro do rio, com uma mancha vermelha que brotava do peito e crescia através da blusa branca.

Reuni forças e consegui virar o pescoço na direção do atirador. Era um sujeito enorme, gordo como o rei Eglom, que batendo o revólver na testa, murmurava:

Perdoname… perdoname mi amor.

Repetiu o lamento duas ou três vezes, depois ficou em silêncio, olhou para os corpos, chorou ao perceber a natureza irreversível dos seus atos, encaixou o cano da arma na boca e mais um disparo ribombou no molhe. O corpanzil desmoronou, acomodou-se nos degraus, deu alguns espasmos e tombou para a direita.

Com o desfecho da tragédia, a multidão, agora cheia de coragem e curiosidade, aglomerou-se em redor dos mortos. Formou-se o tribunal, surgiram as primeiras conclusões:

— Adúltera… Vai queimar no inferno — assegurou uma senhora cujo filho fora abençoado pelo pregador.

— Não julgue para não ser julgado — advertiu um rapaz, enquanto tirava fotos com o celular.

— Talvez o Senhor lhes dê o benefício do purgatório — ponderou o vocalista com barba de asceta hindu — surpreendendo-me, pois eu não esperava ouvir tal reflexão sair da boca de um cantor de reggae.

— Purgatório? Isso nem existe na Bíblia — retorquiu uma senhora com cara de poucos amigos.

— Era muito bonita pra um gordo desses — comentou o João Ligeiro.

— A gente não pode confiar em ninguém mesmo — reclamou a baixinha com sotaque cearense.

O Chico Vascaíno, depois de fazer o sinal da cruz, encerrou os trabalhos do júri com chave de ouro:

Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris.

Quase todos assentiram com a cabeça, como se também entendessem latim.

Ao longe, as viaturas da polícia abriam caminho com suas luzes e sirenes. Os abutres do Boca no Trombone chegaram bem antes.

Olhei uma última vez para a beata, que há tão pouco tempo esbanjava vida a ponto de invadir os meus sonhos, e agora jazia ali, de olhos abertos, duas sentinelas esmeraldas a vigiar um céu azul e indiferente às mazelas humanas. Uma e outra marola lambiam os seus cabelos.

A florzinha lilás caíra entre as páginas da Bíblia, que permanecera aberta, não nos Salmos, mas no livro do Eclesiastes. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

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