A fantástica história da Copa do Mundo de 1930

Quando a FIFA foi fundada em 1904,  seu quadro de membros era composto por apenas sete nações, todas da Europa. Nas duas décadas seguintes, mais e mais federações se juntaram à FIFA, sendo o torneio olímpico de futebol de 1924 o primeiro a ter a participação de times não europeus, como o Uruguai, os Estados Unidos e o Egito. O Uruguai conquistou a medalha de ouro, façanha que a Celeste repetiria quatro anos depois.

Contudo, o torneio de futebol olímpico, organizado pela FIFA a partir da edição de 1920, só era aberto a amadores, o que significava que muitos dos melhores jogadores do mundo não podiam participar da competição. Portanto, em 1926, a FIFA - liderada por seu presidente Jules Rimet e o secretário da Federação Francesa de Futebol, Henri Delauny - decidiu criar um torneio próprio, aberto a todos os jogadores, amadores e profissionais. Após dois anos de deliberações, a FIFA anunciou que um novo torneio, a Copa do Mundo, começaria em 1930 e ocorreria a cada quatro anos.

O árbitro Anibal Tejeda (centro) e os auxiliares Ricardo Vallarino e Baldway posam com os capitães do Brasil, João Coelho Neto (também conhecido como Preguinho) e Milutin Ivkovic, da Iugoslávia.

Cinco países: Holanda, Itália, Espanha, Suécia e Uruguai, se ofereceram para sediar o torneio. Posteriormente, a Holanda e a Suécia decidiram retirar-se da disputa e passaram a apoiar a candidatura da Itália. No entanto, a preferência de Jules Rimet era o Uruguai, já que isso não só daria ao seu novo torneio um sabor mais global, como significaria que o país seria o anfitrião mais forte do mundo na época, graças às medalhas de ouro de 1924 e 1928, embora jogasse com uma equipe de amadores.

Apesar das conquistas uruguaias, a escolha ainda era surpreendente, porque o Uruguai era um país pequeno, com apenas dois milhões de habitantes. Além disso, devido à escassez de estádios, todos os jogos seriam realizados na capital, Montevidéu.

A primeira Copa do Mundo de 1930 foi a única para a qual não houve eliminatórias. Em vez de um torneio classificatório, todos os membros da FIFA foram convidados a participar, com o prazo de inscrição terminando em de 28 de fevereiro de 1930. Nessa época, a FIFA consistia de 41 membros da Europa; exceto Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, que haviam se retirado em 1928 após uma disputa sobre pagamentos a jogadores amadores, eles retornariam à FIFA somente 1946, um time da África (Egito), dois da Ásia (Japão e Sião - atual Tailândia), seis da América do Norte e Central e sete da América do Sul.

Muitas das equipes das Américas mostraram interesse em participar do torneio, mas no final apenas oito (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, México, Paraguai, Peru e Estados Unidos) realmente se inscreveram. O único membro aficano da FIFA, o Egito, também decidiu entrar. Os quatro candidatos vencidos para sediar o torneio e a Hungria se recusaram a participar como protesto contra a decisão da escolha do Uruguai.

A seleção da Bolívia jogou contra a Iugoslávia na Fase de Grupos de 1930 com camisas brancas bordadas “Viva Uruguay”!

Outros países, como Áustria, Tchecoslováquia, Alemanha e Suíça, ficaram de fora por causa da exaustiva viagem marítima de três semanas para chegar ao Uruguai, bem como o fato de que os envolvidos no tormeio teriam que ficar ausentes por até três meses no total, apesar de a Federação Uruguaia ter se oferecido para pagar todas as despesas da viagem.

Os uruguaios até tentaram se aproximar dos ingleses para pedir-lhes que participassem da competição, apesar do fato de que a Inglaterra não era membro da FIFA na época, mas o pedido foi rapidamente negado. Vários outros países, como Bélgica, França, Iugoslávia e Romênia, ainda estavam indecisos.

No momento em que o prazo de inscrições foi atingido, nenhum time da Europa decidira entrar no torneio. Os representantes da América do Sul ameaçaram se retirar da FIFA em protesto contra a relutância dos europeus em participar, atitude que eles consideraram como um insulto. Algo precisava ser feito e rapidamente.

Jules Rimet, o presidente da FIFA cuja iniciativa levara à criação do torneio da Copa do Mundo, finalmente conseguiu convencer seu país de origem, a França, a entrar, embora seu treinador, Gaston Barreau (substituído por Raoul Caudron), e seu melhor defensor, Manuel Anatol, optassem por ficar em casa.

Jules Rimet embarcando para a América do Sul no navio Conte Verde

O vice-presidente da FIFA, Rodolphe Seeldrayers, da Bélgica, também convenceu seu próprio país a participar. Seu melhor jogador, Raymond Braine, que havia marcado 141 em 142 jogos pela Beerschot em seus oito anos no clube, foi banido do torneio depois de abrir uma cafeteria para complementar sua renda, já que os clubes belgas, por serem amadores na época, faziam apenas pagamentos não oficiais baseados no desempenho dos atletas. A federação belga decidiu então que os jogadores que buscassem outra fonte de renda seriam banidos da equipe nacional.

Na Romênia, o rei Carlos II, tomou posse do trono real apenas um mês antes do início do torneio. Um de seus primeiros atos como rei foi conceder a anistia a todos os jogadores romenos que haviam sido suspensos do futebol por qualquer motivo.

Ele também persuadiu empresas, incluindo uma companhia petrolífera inglesa, para a qual muitos de seus melhores jogadores trabalhavam, a dar aos seus funcionários uma licença para participar da Copa do Mundo, ameaçando fechá-las, caso se recusassem. Então, o rei convocou o time romeno. Carlos II também conseguiu convencer a Iugoslávia a entrar no torneio, apesar do time ser formado somente por jovens sérvios, já que os jogadores croatas se recusaram a jogar pela seleção.

O esquadrão romeno zarpou de Gênova em 21 de junho a bordo do barco a vapor Conte Verde. O navio, então, parou na Costa Azul para buscar a equipe francesa, o presidente da FIFA e três árbitros europeus. Em Barcelona, ​​houve outra parada para o embarque dos belgas. Depois de cruzar o Atlântico, o navio atracou no Rio de Janeiro, onde os brasileiros subiram a bordo. O Conte Verde finalmente chegou a Montevidéu em 4 de julho, pouco mais de duas semanas depois de partir da Europa.

Os jogadores da França posam depois do almoço para uma foto de grupo durante seu cruzeiro a bordo do Conte Verde em julho de 1930

Quando os iugoslavos decidiram participar da Copa do Mundo, o Conte Verde estava lotado e eles tiveram que procurar um modo de viagem alternativo. Depois de uma viagem de trem de três dias até Marselha, os iuguslavos embarcaram no navio a vapor Flórida.

O egípcios também fariam a viagem no Flórida, mas o barco que faria a travessia da África até a Europa, atrasou-se devido a uma tempestade no Mar Mediterrâneo e eles perderam a conexão para a América do Sul. Isso significava que o torneio iria adiante com apenas 13 equipes.

O primeiro jogo da Copa do Mundo foi disputado entre a França e o México em 13 de julho de 1930, no minúsculo Estádio Pocitos, que pertencia ao campeão uruguaio, o Peñarol. O local tinha capacidade para apenas mil pessoas e foi uma multidão desse porte que viu o atacante francês Laucien Laurent, de 22 anos, do FC Sochaux, marcar o primeiro gol da Copa do Mundo, para ajudar a França a vencer por 4 a 1 no Grupo 1.

Seria a Argentina quem venceria o Grupo 1, formado por quatro participantes - o Chile era o outro time envolvido - graças a três vitórias em três jogos. Os outros três grupos tinham apenas três equipes. A Iugoslávia, cuja complicada viagem ao torneio obviamente não atrapalhou muito, venceu o Grupo 2 graças às vitórias sobre o Brasil e a Bolívia. O Uruguai saiu vitorioso nos confrontos contra Peru e Romênia no Grupo 3 e os Estados Unidos triunfaram sobre o Paraguai e a Bélgica no Grupo 4.

O capitão argentino Manuel Ferreira troca estandartes em 1930 com o capitão chileno Guillermo Subiabre

Na vitória por 3 a 0 dos Estados Unidos sobre o Paraguai, a confusão sobre a identidade do artilheiro do segundo gol dos americanos fez com que, durante 76 anos, se pensasse que o primeiro hat-trick da Copa do Mundo fora marcado por Guillermo Stábile, da Argentina, na vitória por 6-3 sobre o México. Foi somente em 2006 que o segundo gol dos EUA foi finalmente creditado a Bert Patenaude, que havia marcado outros dois gols contra o Paraguai, dando-lhe o crédito do primeiro hat-trick na história dos mundiais.

As quatro equipes que terminaram na primeira colocação de cada grupo, Argentina, Estados Unidos, Iugoslávia e Uruguai, classificaram-se para as semifinais. A primeira semifinal foi disputada entre  a Argentina e os Estados Unidos, em um campo encharcado durante uma forte chuva.

A equipe dos Estados Unidos, que contava com seis jogadores britânicos, perdeu o meia Raphael Tracy aos dez minutos após ele quebrar uma perna durante uma jogada violenta. Um gol de Monti na metade do primeiro tempo deu à Argentina uma vantagem de 1–0. No segundo tempo, a força da defesa dos Estados Unidos foi dominada pelo ritmo do ataque argentino, tendo a partida terminado com o placar de 6–1 para a Argentina.

O goleiro iugoslavo Milovan Jaksic  durante a partida contra o Brasil na Copa do Mundo de 1930

Na segunda semifinal, Iugoslávia e Uruguai enfrentaram-se. A seleção iugoslava marcou o primeiro gol com Dorđe Vujadinović, aos quatro minutos. O Uruguai, logo em seguida, virou o placar para 2-1. Pouco antes do intervalo, a Iugoslávia teve um gol anulado por uma marcação controversa de impedimento. Os anfitriões marcaram mais quatro gols no segundo tempo, encerrando a partida com o placar de 6-1, tendo Pedro Cea marcado um hat-trick.

A Final da Copa do Mundo FIFA de 1930 foi disputada pelos finalistas das Olimpíadas de 1928, Uruguai e Argentina.

A partida foi disputada no Estádio Centenário em 30 de julho. Os portões do estádio foram abertos às oito horas, seis horas antes do início do jogo. Um desentendimento ofuscou a preparação para o jogo porque as equipes discordavam sobre quem deveria fornecer a bola, forçando a FIFA a intervir e decretar que a seleção argentina daria a bola para o primeiro tempo e a uruguaia daria a bola para o segundo.

A seleção do Uruguai - o primeiro campeão mundial

O jogo terminou 4-2 para o Uruguai (que perdia por 2-1 no primeiro tempo), que acrescentou o título de vencedores da Copa do Mundo para o manto de Campeões Olímpicos, com Jules Rimet, presidente da FIFA, entregando o troféu da Copa do Mundo, mais tarde batizado com seu nome. O dia seguinte foi declarado feriado nacional no Uruguai; na capital argentina, Buenos Aires, uma multidão atirou pedras no consulado uruguaio.

O último jogador vivo daquela final, Francisco Varallo (que jogou de atacante para a Argentina), morreu em 30 de agosto de 2010.

A fantástica história da Copa do Mundo de 1930 A fantástica história da Copa do Mundo de 1930 Reviewed by Bento Santiago on junho 17, 2018 Rating: 5
Tecnologia do Blogger.